O Brasil é o segundo país que mais frequenta academias no mundo, segundo levantamento do Cupom Válido, realizado com dados do IBGE, Numbeo e Statista. Mais de 21% dos brasileiros frequentam esses espaços, estando atrás apenas da Índia, onde o índice chega a 24%. O país também aparece em segundo lugar em número de academias, com 29.525 unidades, atrás apenas dos Estados Unidos, que contam com 41.190. Apesar da alta adesão à atividade física, o crescimento do número de praticantes também chama atenção para a ocorrência de dores e lesões musculoesqueléticas. Um estudo realizado pela Universidade de Brasília (UnB) com 730 praticantes de treinamento resistido, entrevistados em quatro academias do DF, mostrou que 79,7% relataram ter sofrido alguma lesão nos 12 meses anteriores à pesquisa. O levantamento também apontou que 42% tiveram ao menos um episódio de dor no mesmo período. Entre as regiões mais afetadas por lesões estavam o ombro (31,1%), a coluna lombossacral (29,1%) e o joelho (14,9%). Segundo o médico especialista em dor Dr. Lúcio Gusmão, ortopedista e fundador da Rede CADE (Centro Avançado de Dor e Especialidades), os resultados abrem espaço para discutir os principais desconhecimentos sobre a musculação e os cuidados necessários para que a prática de exercícios contribua para a saúde. "A atividade física é fundamental, mas o exercício precisa respeitar os limites do corpo. A dor persistente, principalmente quando aparece durante determinados movimentos ou continua depois do treino, pode indicar que existe uma sobrecarga ou alguma lesão que precisa ser investigada", explica. Ombro, coluna e joelho exigem atenção Para o especialista, a articulação do ombro merece atenção especialmente em exercícios que envolvem movimentos repetitivos ou cargas elevadas. "O ombro tem uma grande amplitude de movimento e seu fortalecimento subsidia diversos esforços do tronco. Justamente por isso, depende de um conjunto de músculos e tendões para ficar estável. Quando há excesso de carga e repetição acima da capacidade de recuperação, os tendões são prejudicados e impactam o movimento do braço como um todo", afirma Dr. Lúcio. A coluna participa da estabilização de praticamente todos os movimentos realizados durante o treino. Por isso, exercícios que envolvem agachamentos, levantamento terra e cargas livres exigem atenção especial ao controle do tronco e à capacidade de estabilização do praticante. Segundo dados da Previdência Social, problemas na coluna lideraram as concessões de auxílio por incapacidade temporária em 2025, com 237.113 afastamentos. "Durante muitos exercícios, a coluna precisa permanecer estável enquanto braços e pernas produzem força. Quando essa capacidade de estabilização é insuficiente, o corpo começa a compensar o movimento e a distribuição das cargas pode ficar desequilibrada. Isso não significa que esses exercícios sejam prejudiciais, mas que precisam ser adequados ao nível de condicionamento de cada pessoa", explica. Já o joelho, terceira região mais atingida, sofre principalmente em atividades que envolvem saltos e outros movimentos de flexão e extensão. Para o especialista, não existe uma fórmula única para evitar lesões, já que fatores como condicionamento físico, histórico de lesões, técnica, carga e frequência dos treinos precisam ser considerados em conjunto. Quando a dor deixa de ser normal? Uma das principais dúvidas de quem pratica musculação é diferenciar o desconforto esperado após atividade intensa de uma dor que pode indicar uma lesão. Segundo Dr. Lúcio, dor intensa, persistente, acompanhada de inchaço, perda de força ou limitação de movimentos deve ser investigada. "A dor muscular que aparece depois de um treino mais intenso tende a melhorar com o descanso e a pessoa retoma o treino no dia seguinte sem grandes dificuldades. Já uma dor aguda durante o exercício, que persiste nos dias seguintes ou vem acompanhada de inchaço, fraqueza ou limitação funcional, merece atenção. Nesses casos, insistir no treino pode agravar o quadro", alerta. Como reduzir o risco de lesões Para o especialista, prevenir lesões não significa deixar de treinar, mas respeitar as condições e os limites de cada pessoa. Aquecimento, progressão gradual das cargas, execução correta dos movimentos, períodos adequados de descanso e acompanhamento profissional estão entre as principais medidas. “O problema não é a musculação, mas ignorar os sinais do corpo e acelerar etapas. A evolução precisa ser gradual”, conclui Dr. Lúcio Gusmão.